BALANÇO SOCIAL - México

Para qualquer empresa é básica a consideração dos seus resultados sociais.
JOSÉ MA. BASAGOITI N.

Hoje, quarta-feira chamada de Cinzas, parece uma ocasião propícia para nós, empresários de uma associação de inspiração cristã, tratarmos do tema anunciado, no qual, de alguma maneira, vamos ter que ver a empresa através de uma ética acima do material.

A Palavra "não junteis tesouros", ou "ali onde está vosso tesouro, está vosso coração", a que diz "lembrai-vos de que sois pó" são boas formas de contemplarmos a empresa nos seus ângulos mais profundamente humanos. Isso não significará que nessa contemplação da empresa vamos poder despoja-la totalmente dos seus aspectos econômicos e materiais, porque como diz muito bem Pritman: "A função social da empresa, sendo econômica, está no profissionalismo dos serviços materiais para o homem".

Nós, como sócios da USEM, não devemos dar alento àqueles que pensam que, quando contemplamos a empresa nos seus aspectos supramateriais, estamos pelo menos sendo angelicais, o como se disse aqui, "aspirando pelos angelicalismos e, portanto, de algum modo abdicando do nosso mais autêntico profissionalismo empresarial".

Erros sobre "o social"

Entre empresários, sempre que se pronuncia o termo sacia , produz-se uma espécie de prevenção, imaginando que estamos saindo daquilo que são autenticamente os negócios ou estamos falando daquela parte dos negócios que se refere ao altruísmo de todo ser humano e, portanto, também das empresas, formadas por homens; a filantropia de toda empresa como comunidade de pessoas; ao cumprimento de algumas das nossas obrigações socio-beneficentes. Notem que digo beneficentes junto a sociais – porém sempre concebidas no capítulo das utilidades antes de impostos, onde vamos ter como companheiro o fisco pela metade.

O social, para nós, é muitíssimo mais perigoso, porque dizem que é algo que corresponde quase ao político, pelo fato de que os políticos tomam como exclusivamente seu o benefício social, para logo, é claro, vesti-lo, enroupá-lo de todas as argumentações políticas. Os políticos têm grande interesse de tipo hegemônico, para que o social seja deles, só deles, por isso ampliaram muito a idéia de que tudo que é social é próprio do político; do político a nível de partido, do político a nível da idéia, do político a nível de funcionário já estabelecido no poder por meio do seu partido; e com estas ações de dedicação, para que o social fique no seu campo, venderam-nos e em muito casos nós, os empresários compramos a idéia de que o social é quase algo que devem fazer os empresários em regime de duvidosa subsidiariedade. Vou explicar: se vocês lerem os muitos textos que hoje em dia existem sobre a responsabilidade social e suas definições, sobre os resultados sociais, o balanço social, a auditoria social das empresas, vocês verão que, em quase todos os textos, fala-se de que uma vez que os problemas sociais são tão complexos que o Estado já não quer ou não pode resolvê-los, as empresas – e acrescentam, as "grandes" empresas especialmente - devem procurar ajudar para que esses problemas em primeiro lugar se previnam e em segundo lugar se corrijam. Assim se muda um pouco, como numa medida auxiliar, as responsabilidades do Estado diante das possibilidades econômicas para a esfera das grandes corporações.

Este e um grave erro, mesmo que com ele concorde gente de renome como Peter Drucker, porque deixam as pequenas empresas sem possibilidade de fazer esse trabalho

auxiliar e, além disso, truncam, anulam, eu diria que deixam completamente vazio esse lado da responsabilidade social que corresponde a toda empresa, por pequena que seja; porque se a empresa grande tem que ter responsabilidades macrosociais, a pequena empresa terá responsabilidades microsociais.

Tais confusões se produzem principalmente porque não há idéias claras do que é o social e como a empresa tem que ver com o social. E por isso, as considerações que hoje vamos fazer irão servir para esclarecer esse tipo de conceitos, e não fazer um relato técnico do muito que já se fez, especialmente nos Estados Unidos, em nível acadêmico e em ensaios de tipo prático, para primeiro enunciar as listas de custos, benefícios, hipotecas sociais, etc., e logo estabelecer os sistemas e os métodos para medi-las e, portanto, chegar assim a poder de alguma maneira apresentar à sociedade interessada nisso os resultados do desempenho social da empresa, para saber se a empresa, no plano social, está sendo útil ou se a empresa está em bancarrota social (notem como estes termos contábeis podem ser trasladados perfeitamente para o social).

Progresso das técnicas de balanço social

Se vocês estão interessados no muito que se avançou em todos os aspectos relativos à mecânica do processo, a USEM poderá dar-lhes uma ampla bibliografia sobre esses temas, especialmente àqueles que, já convencidos, queiram definir as suas responsabilidades, estabelecer o programa social antes de cada exercício da mesma forma que estabelece o programa financeiro, e depois, do modo especial, queiram fazer os procedimentos de controle, de medida e avaliação, e através disso as técnicas de apresentação do balanço social. Além disso, como já há grande progresso nesse terreno, recorrem a técnicas de auditoria social interna e externa, seja de forma profissional, amadorística ou pelos inimigos da empresa. Refiro-me à hostilidade, porque como muitas vezes nos aconteceu na vida da empresa (na história do empreender desde que o artesanato se transforma em empresa), reconhecemos as nossas responsabilidades depois que os fatos caíram por cima de nós. O movimento de avaliação do desempenho social, nos Estados Unidos, nasce depois que aparece um Nader para representar os interesses de acionistas ou de consumidores, ou desde que nasça outro tipo de movimentos nos quais comunidades de uma ou de outra índole dirigem-se à empresa para dela exigir resultados que não se encontram nos balanços ou nos relatórios anuais das corporações.

No fim, talvez possamos referir-nos, se tivermos tempo, às dificuldades de tipo prático que podem surgir ao passar dos conceitos, das idéias às técnicas de avaliação do social; porém, primeiro vamos insistir nos conceitos.

O social na empresa

Por que o social na empresa? Por que, se a opinião pública, se muitos intelectuais, alguns escrevendo em editoriais nos jornais e muitos dos pensadores religiosos nos púlpitos negam a empresa quase por definição ou por fatalismo, sua característica de ente social? Todos, desgraçadamente, estamos vendo no que lemos e no que escutamos, que empresa é sinônimo de exploração e por sua vez sinônimo de lucro. Estou usando palavras vulgares; palavras que inclusive são usadas entre nós: quando se diz "setor social" da sociedade, a expressão e entendida entre outras coisas, como o que não é empresarial. Fala-se de "empresas sociais" e quando se fala de empresas sociais sempre se pensa naquelas que não têm obrigação de fazer "utilidades"; "não fazer utilidades" é o que faz uma empresa "social". Fala-se "do social' como sinônimo de algo que está quase separado de qualquer medição de tipo econômico, e com isso tudo que é econômico por exclusão ou por ostracismo, fica separado do social. Se vocês se dão conta, o simples fato de que nós admitimos essa terminologia, nos faz a-sociais; o fato de que aceitamos não estar no setor social e que nossas empresas não são sociais já nos tira da realidade.

Por que somos sociais? E por que aqueles que dizem que são "sociais" podem presumir que por natureza o sejam? Porque nós, da mesma forma que uma empresa das chamadas sociais, nascemos na sociedade, nossas empresas são geradas no nosso ambiente social, nas necessidades sociais, na indigência de cada indivíduo e da coletividade; nós nos desenvolvemos na medida em que essas necessidades sociais se produzem e na medida em que a sociedade se desenvolve e na medida em que somos capazes de servir produzindo o que satisfaz à sociedade.

Ou nos dedicamos ou somos expulsos do serviço, quer dizer, somos eliminados, vamos à falência, desaparecemos como empresa no momento em que não houver necessidade. Antes está a existência da sociedade; no momento em que se origina a sociedade está gerada irrevolgavelmente a necessidade da empresa. Podíamos conduzir este pensamento à seguinte afirmação: a empresa ‚ por natureza, antes de mais nada, um ente social, um ente que nasce com uma necessidade social para cobrir essa necessidade social para servir à sociedade; um ente que morre no momento em que não cumprir esses requisitos. É dependente e serviçal desde a origem até o fim, da sociedade, na qual nasce e à qual serve.

O fato de que a empresa não nasce para dar serviço de tipo material, e que o valor econômico acrescentado que a empresa tem obrigação de dar à sociedade, tenha dimensões materiais, não significa que nossa função não seja social; apenas significa que nossa função é social porque a sociedade o exige, e nós damos isso à sociedade. Por isso é absolutamente certo dizer que "a primeira função social da empresa ‚ ser útil". Quando a empresa está dando serviço e está produzindo valor econômico, está justificando a sua própria permanência, o seu próprio desenvolvimento e sua dignidade integral dentro da sociedade.

A profunda raiz do social

Até aqui essas razões são aceitas na integra por todos nós; agrada os ouvidos de qualquer empresário que digam que a sua primeira função social é a de prestar serviço.

Porém, o que sucede é que paramos aí, onde apenas começa a profundidade da nossa função social, e em seguida nos esquecemos de que "tudo que é da empresa é social" e tara cumprir com a função social (resultado econômico) "rejeitamos" toda classe de bens sociais que a sociedade está buscando por outros meios, utilizando-se de outros serviços e de outras profissões. Não devemos pôr em perigo a justificativa da nossa função social, que é o econômico, porque numa hierarquização de funções sociais, temos que aceitar que a função econômica da empresa é indispensável e o homem, depois de sobreviver, tem que conviver, depois de conviver tem forçosamente que procurar sua própria excelência, sua própria auto-essência e especialmente a sua transcendência. E se nós, na cúpula da função social da sobrevivência básica, importantíssima, estamos tornando impossível a convivência e a excelência e a auto-essência e a transcendência, estamos definitivamente injustificando ou, pior que isso, condenando a validade da nossa função social. Por isso, quando a empresa tem que considerar os seus resultados sociais, não pode se limitar exclusivamente a apresentar um balanço de resultados financeiros; porque está apresentando apenas um dos aspectos, o insuficiente, da sua integral função e missão social. Sendo a empresa uma comunidade de pessoas, portanto uma microsociedade, poderíamos dizer que para poder verificar quais os resultados sociais da empresa, deveríamos referir-nos a qual é a sociedade ideal que queremos ter, em nível macro e em nível universal. Porque, como é lógico, se conseguimos conceber essa sociedade, poderemos muito mais facilmente, pelo menos no nível conceitual, conceber as metas da nossa empresa. Nossa empresa não é nada mais do que um microcosmo, uma pequena sociedade que tem a obrigação moral de ser a sementeira que faz sementeiras, que nos levará à obtenção da sociedade perfeita total. E se a sociedade total, reconhecer em primeiro lugar os valores do homem, desde a sua dignidade até sua liberdade (parece que a dignidade e a liberdade do homem estão muito perto, e ao falar desde a sua dignidade até sua liberdade, estou dizendo pouco), vocês podem meditar e perceberão que existe um incrível universo que passa pela caridade, pela justiça, e é isso que nos vai dar o homem total.

A consideração do homem no que se refere a resultados sociais é básica para qualquer empresa. A empresa está no homem que a integra e a empresa se responsabiliza pelo homem a quem serve e a empresa também, de algum modo, tem que prestar contas a todos aqueles que estão ao seu redor socialmente e que, por isso, se beneficiam ou se prejudicam com as ações da empresa.

Se tomamos como básica a consideração do homem, vamos imediatamente encontrar uma série de dimensões, desde muito humanas até muito sobrenaturais que devem ser levadas em conta para poder fazer nosso programa social, e portanto, para fazer a nossa avaliação social da empresa.

O homem e a legalidade, o homem e a moralidade, o homem e o profissionalismo, o homem e todas as considerações que também vão desde a dignidade até a liberdade. As virtudes do homem; a força para sua segurança, a prudência para suas decisões, a temperança para o seu equilíbrio, a fé a esperança para a sua felicidade, a caridade, o amor para chegar à plenitude e à sua essência.

A publicidade como exemplo

Talvez pelo caminho dos exemplos eu possa ilustrar um pouco o que até este momento foi dito em forma de idéias abstratas. A publicidade! Parece que a publicidade deve ser medida exclusivamente em termos de vendas, em termos de alcance, de impacto; todas as terminologias que vocês conhecem. A publicidade no nosso balanço social deve ser medida em termos de informação, para os efeitos que a publicidade busca: difusão das alternativas para a seleção, o fermento da liberdade, e por isso, deve ser medida em termos de veracidade. No balanço social uma publicidade não verdadeira traria obviamente um castigo muito grande. Continuando com a publicidade, a moralidade da própria publicidade; não só a verdade; a sociedade que muitas vezes não tem outra universidade do que os anúncios, porque não lê outra coisa depois de ter sido "alfabetizada", tem que pedir contas a quem faz a publicidade que lhe oferecem; se é para o bem da sua saúde mental e espiritual ou se, pelo contrário, para prejuízo de sua inteligência e de sua vontade.

A legalidade! vocês verão que não nos estamos referindo nem ao homem que entra na empresa, nem ao nosso empregado, nem ao nosso fornecedor, nem sequer ao nosso consumidor, porque quem vê nossa publicidade e o universo completo ou quando menos, os universos que queremos atingir, dos quais só uma pequena parte vai ser depois nosso consumidor. Estamos nos dirigindo diretamente ao homem, e estamos, pelo menos, provocando resultados superavitários ou deficitários no que se refere a esse contato e a essa relação com esses homens. Este é um resultado social. Ser  o nosso favorável ou adverso?

A fraude

Acabamos de ter a dor, o sentimento ou pior ainda, a vergonha de um escândalo provocado pelo comportamento de um empresário que lançou lodo sobre toda a classe empresaria, porque deu a entender à sociedade, e muitos outros ainda também se encarregaram de capitalizar essa hipótese, de que para fazer viver uma empresa e preciso fazer trapaças fiscais, o que significa fraudar a sociedade, por não lhe dar o que lhe pertence, e o que toda sociedade, além disso, está exigindo, para que por sua vez lhe dê serviços. Pior ainda, no que possa representar de escândalo, é o mau exemplo e, sobretudo, a frustração e a vergonha para uma classe que existe precisamente em função das necessidades da sociedade, necessitada de prestígio, de honra, em uma palavra, carente de ter respeito por si mesma, e de que seja respeitada pelos outros setores da sociedade. Se tivéssemos que fazer um simples balanço do que pode apresentar essa ação, poderíamos concluir que estaríamos obtendo resultados de bancarrota.

A utilidade em ética social

Infelizmente o falo de que muitas empresas tenham um conceito da utilidade muito aritmético e muito pouco filosófico e, especialmente, muito pouco humano, faz que para muitos se justifique qualquer coisa contando que represente uma diferença entre o que eu compro e o que eu vendo. Triste conceito de utilidade porque essa diferença pode ser apresentada por qualquer bandido!

O conceito de utilidade sempre carrega dentro de si um valor a mais que até agora chamamos econômico e que de agora em diante a sociedade vai exigir que também seja social. E ao dizer que vai exigir, me baseio em judas as leituras que se pode fazer neste momento sobre as exigências que a sociedade em todos os níveis está apresentando às empresas.

Numa experiência

Sei que quando falamos assim sobre o que são problemas sociais, responsabilidades sociais, funções sociais, balanços, resultados, auditorias, etc., sempre nos falta dizer: entendo, aceito, porém, como? Pois bem, aqui ‚ onde provavelmente nós teremos que fazer um esforço que talvez não tenhamos querido fazer porque ninguém quis ser pioneiro nesta matéria. Se neste momento vocês reúnem os conselhos das suas empresas, e lhes dizem que chegou o momento de avaliar a empresa no seu papel social, poderia dizer-lhe de antemão quais serão as objeções que se irão apresentar. São tão inúmeras que ser  melhor catalogarmos por famílias. Algumas estão na ordem da ignorância: "ninguém conseguiu fazer isso com êxito", "isto não é empresarial", "simplesmente isto me parece utópico", outras estão na ordem da resistência profissional: "isto vai mexer com nossos lucros, porque o social tem um custo", "isto contraria nossos interesses financeiros". Podemos perceber, depois dos conceitos que analisamos, que neste tipo de objeções o que há é um desconhecimento total.

O custo financeiro da ação social deve estar incluído por essência. Não podemos de modo nenhum pensar que possa haver um custo financeiro de uma atividade social, que eu tenha podido economizar para acrescentar aos meus resultados financeiros, porque isto ‚ sinônimo de que qualquer custo que eu tenha guardado foi em detrimento do serviço, e em detrimento definitivamente da função empresarial. Porém, eu sei que houve empresas que de qualquer maneira resolveram fazer isso. Podemos tomar o exemplo de uma empresa muito conhecida que tem até balanços para nas escolas aos alunos da sua comunidade.

A experiência é interessantíssima, porque no momento em que faço o esforço de apresentar a educandos que estão nascendo para a vida social qual é minha atuação, para que com essa ingenuidade da infância possam julgar se "eu sou ou não mau" em termos genéricos, estou fazendo um enorme esforço para poder entender a minha própria empresa e para poder justificá-la diante de quem não tem nenhum convencionalismo, nenhuma contaminação de tipo profissional ou de tipo econômico ou de qualquer outro tipo.

Começando por esta experiência, eles prosseguiram logicamente levados por um enorme esforço de imaginação para poder dizer no conceito de uma criança, o que é que estou fazendo de bem ou de mal para esta comunidade, onde a criança nasce e está aprendendo, e onde apenas a criança está abrindo os olhos para o complexo, para o sociológico.

Nesta experiência que nasceu um pouco por motivação de relações públicas e com a idéia de chegar indiretamente aos pais, veio depois a necessidade de explicar os resultados sociais para as pessoas maiores, porque obviamente se apresentou de imediato a critica seguinte; é muito fácil explicar aos filhos porque isso ‚ bem simples, porém e aos adultos? A empresa à qual me refiro tem neste momento cinco jogos de apresentação do seu resultado social para os diversos universos com os quais se têm que relacionar e tem a coragem de apresentai resultados sociais às comunidades religiosas, com objetivo de que a critica que possa existir e existe hoje em dia, em todos os compromissos religiosos, possa ser também uma parte, uma ajuda na análise da tarefa dessa empresa na sociedade.

O futuro do balanço social

Sem nenhuma técnica específica à qual possa referir-me no momento, mas transmitindo a vocês todos esses textos, fundamentalmente ao mais conciso, que é o de Clark C. Abt e que se chama The Social Audit for Management, eu poderia dizer-lhes que a metodologia a usar é muito simples, quase como aprender a nadar sem necessidade de ir a uma escola de natação; é ir metendo-se na água. Depois nós nos transformamos em professores de natação, porém temos que reconhecer uma coisa: sabemos o que é, não temos mais a fazer do que ir vivendo, de alguma maneira ir avançando como se avançou em todas as técnicas, em todas as mecânicas a partir do mais primitivo.

Muitos grupos de contadores, que fizeram intensos estudos e depois escreveram sobre suas experiências em matéria de avaliação social, queixam-se de que o social não e numericamente avaliável, e de que não há modo de estabelecer critérios fixos, metodologias aceitáveis por todo mundo e enquanto isso não existir, é inútil falar de balanço social.

O balanço social do comportamento da empresa e o julgamento desse comportamento é a sociedade que deve fazer, juntamente com a própria empresa. Seria um pouco absurdo que fosse apenas a empresa que se avaliasse socialmente, uma vez que é a sociedade que contempla a empresa e que em definitivo a julga e sofre as conseqüências. É preciso fazê-lo em conjunto e é por isso que qualquer avaliação social de uma empresa que seja íntima e que de algum modo não se atreva a confrontar-se com o juízo externo, é subjetiva. Chegará, muitos de nós o veremos esboçar-se, outros terão a sorte de vê-lo já feito, porém chegará o momento em que da mesma forma que há avaliações contábeis com todos os seus defeitos, especialmente em épocas de inflação, existirão avaliações "geralmente aceitas" como dizem os contabilistas e que, portanto, servirão de parâmetro para que haja parâmetros de desempenho social. Creio que isto não é uma profecia, é simplesmente uma visão de coisas que se estão comprovando por si mesmas.

Não se pode avaliar aritmeticamente. Mas não se poderá avaliar conceitualmente? Desde que as técnicas matemáticas e desde que as ciências exatas começaram o seu vôo, parece que a utilização de conceitos não serve. Não se esqueçam: a avaliação do social se fará pela via da ciência social. Constitui grave erro procurar o meu preconceito social e minhas metas no desempenho social para depois apresentar o meu balanço, minha avaliação, minha auditoria e tudo o que tenho que apresentar à sociedade, por meio de um balanço numérico. Teremos que aprofundar, e isto é muito importante, em tudo que é definição de conceito social. Se pensarmos que o balanço social vai ficar na avaliação dos investimentos que são feitos para não contaminar o ar, ou os donativos que são dados aos hospitais ou universidades, estamos falando de um conceito social totalmente truncado, paupérrimo, estamos no terreno a pseudofilantrofia, no terreno a dizer da responsabilidade social avaliada a nível de utilidades antes da dedução de impostos. O terreno em que devemos mover-nos é o do desempenho social a nível de custos. Nossa responsabilidade social cumpre-se todos os dias na operação; não se cumpre quando e sempre que haja boas utilidades e possibilidades de dedução de impostos.

Um motivo de primeira ordem

Desenvolvimento do homem. Este será possivelmente a motivação que com muitos subconceitos será a coisa mais importante de todos os motivos das nossas responsabilidades sociais, e na ordem do desenvolvimento do homem virá em seguida à estrutura funcional da empresa. Hoje em dia as empresas estão estruturadas sobre motivações de tipo competitivo. Ao homem na empresa dizemos: "Desenvolva-se competindo com quem está ao seu lado" e chegamos a criar dogmas como: "o que não sobe, fica embaixo". Desenvolvemos, poderíamos dizer, compromissos de crescer, no sentido de crescer mais que o outro, em lugar de crescer na profundeza de si mesmo e com isto logicamente desenvolvemos frustrações na empresa.

Ser por comparação! É o que estamos ensinando nas nossas empresas, e o indivíduo que não é capaz de subir degraus é desprezado e ele se sente frustrado; o indivíduo que tem uma vocação específica para fazer algo é posto diante da necessidade de continuar subindo até aquele nível que Peter enunciava; "da sua própria incompetência". Cultura, esta terrível, na qual poucos homens, na necessidade de tentar sempre ser mais que o outro, para que só sinta o seu próprio êxito quando foi capaz de vencer o próximo! Cultura da frustração dos outros e do êxito, do falso êxito, pelo menos.

Nossas organizações humanas, sejam empresariais ou burocráticas, sejam nacionais, têm forçosamente que ser piramidais e ao ser piramidais terão que ter alguns homens subordinados; porque não existe, nem pode existir, a coordenação horizontal.

O serviço da autoridade ou o prestígio da autoridade? Nem um nem outro. A autoridade é absolutamente necessária a toda organização ou grupo humano, é a condição orgânica e funcional da eficácia, porém só se for concebida como serviço. O prestígio da autoridade foi tão exaltado que hoje em dia não se pode ser senão bem importante, não se pode ir senão para cima.

Resultado social da empresa seria obviamente poder analisar homem por homem e saber que pode fazer cada homem por si mesmo na empresa, com o desejo de alcançar a sua própria plenitude e não simplesmente com a intenção de chegar a ser mais de quem está ao seu lado. O resultado social da empresa será alcançado quando todas as potencialidades humanas chegarem ao seu máximo e não quando tenham sido desaproveitadas. Porque se a um homem que pode cem, exijo apenas cinqüenta, porque os que o rodeiam são quarenta, estou desperdiçando cinqüenta desse homem e ele está se desperdiçando a si próprio. Porém, se desse homem que pode cem, independentemente de outros que possam pedir duzentos, obtém-se que dê os seus cem, dele conseguimos que seja um homem total e foi consegui o resultado social mais importante que uma empresa pode pretender. Da soma e da reunião de homens, cheios de si mesmos, totais, não frustrados e totalmente auto-realizados, deriva-se e gera-se a utilidade social da empresa.Homens completos, empregados até o limite das suas capacidades, capacitados até a conquista total das suas possibilidades, integram a autêntica empresa para a utilidade social.
 
 
A empresa,realidade econômica e humana

ADAM ELIZONDO

 

O trabalho não é novidade para a humanidade, pois ela sempre teve que trabalhar para satisfazer suas necessidades. Tais necessidades são, portanto, o primeiro motor da nossa ação. O trabalho também veio a ser o instrumento por excelência do desenvolvimento do homem não digo que seja o único, mas dos mais importantes, porque, pelo trabalho, o homem se tornou consciente das suas necessidades e capacidades. Percebeu também que podia modificar o que fora criado e, assim, sentiu-se também criador; foi acumulando conhecimentos e recursos; começou a sentir-se dono do seu próprio destino e a dirigi-lo e, coisa muito importante, começou a ultrapassar-se, a sair de si mesmo e a integrar-se nos outros, porque seu trabalho tinha efeito favorável ou desfavorável para os outros

Sob o signo da otimização

Através do tempo, esse modo de trabalhar também foi obrigando o homem a procurar novas maneiras que fazê-lo melhor, de ser produtivo. A empresa nasceu, não para inventar o trabalho, mas para organizá-lo: essa foi sua origem e sua razão de ser. Desde o princípio, a empresa teve uma missão otimizadora dos recursos e dos esforços dos homens. É uma instituição nitidamente humana, profundamente humana, porque é profundamente humano procurar a otimização. Essa é a missão que a distingue das demais instituições humanas. A própria essência da empresa é poder gerar produtos e serviços com a menor quantidade de recursos e esforços possível, e também fazer isso cada vez melhor. No entanto, e sem poder negar que sua missão otimizadora é seu distintivo e sinal de orgulho, temos que aceitar também que a maneira pela qual consegue isso muitas vezes foi sua desonra.

Não há dúvida de que a empresa tem sido alvo, especialmente nos últimos tempos, de fortes críticas, nem sempre injustificadas. Parece que, na busca de uma produtividade crescente, algumas vezes a empresa se esqueceu de que, ao otimizar os esforços do homem, esses esforços devem conservar sua característica original. O que jamais poderemos esquecer é que o trabalho humano Não tem como único fim o provimento das necessidades do homem, mas que é, ao mesmo tempo, o instrumento e a fonte do seu desenvolvimento pessoal. Pode-se identificar muitas queixas contra a empresa. Não é o momento, nem o lugar para discuti-las. Quero concretizar apenas duas, que considero de grande importância para meu trabalho.

Quem paga o preço do meio ambiente?

Ela é acusada de ter tido pouca preocupação com o habitat do homem tendo pouco cuidado em preservar elementos vitais de uso comum, tais como a água, a terra, o ar, etc. Não podemos, certamente, dizer que a empresa na sua atuação econômica tem direito de negligenciar essas coisas. Está claro que não; eu acredito que, na sua tarefa de otimizar esforços e recursos que tem sua prova final no preço dos seus produtos e serviços e na aceitação de tal preço pelos usuários, a empresa preferiu evitar esses custos em lugar de averiguar se os usuários estavam dispostos a pagá-los. Isso foi um erro. Porque temos que estar de acordo que preservar o ambiente tem um custo e de que todo custo deve ser repartido com o usuário do produto ou serviço de que se trata.

A empresa não procurou ganhar mais, mas esforçou-se para evitar este custo ao usuário final e a única coisa que se conseguiu foi reparti-lo mal, já que esse custo não foi evitado definitivamente, mas foi a sociedade que o pagou, em termos de degradação do habitat; porém, todos pagaram, em lugar de o fazerem apenas aqueles que se beneficiaram com os produtos ou serviços ou com ambos. Uns foram os que receberam o benefício - os que usaram os produtos ou serviços - e outros foram os que pagaram - os que sofreram e sofrem as conseqüências da contaminação. Isto tem que ser corrigido por razões de sobrevivência e de justiça,

A pergunta que surge espontaneamente é: quem ‚ ou quais são os responsáveis por promover esta correção? Creio que a resposta é óbvia: o agente do bem comum - o Estado - é quem deve responsabilizar-se por isto, pela sua posição imparcial, e mediante sua orientação geral. Pedir aos particulares, sozinhos ou constituídos em empresas, que tomem, por sua própria conta as medidas para preservar o ambiente e os bens de uso comum é utopia. É preciso que uma entidade que não tenha interesse em jogo se responsabilize por isso.

quando o Estado, em lugar de governar a atividade dos particulares e de promover as condições e regras de convivência necessárias para o desenvolvimento

pessoal e social dos seus integrantes, se dedica a fazer-se de empresário, deixa de ser essa entidade imparcial. As regras já não serão gerais e orientadas para o bem comum, mas os seus interesses empresariais irão pesando, inclinando-o a evitar um custo que afeta os seus produtos e serviços.

Respeitar o trabalho

Costuma-se acusar a empresa e, infelizmente, às vezes com razão, de considerar seu pessoal como força de trabalho. Assim o chamam e assim o tratam. Como força de trabalho é um instrumento e o instrumento é manipulado; quando isso acontece, esquece-se a dignidade da pessoa; massifica-se o trabalhador, coisifica-se o homem. Quando o homem é instrumento, acaba perdendo a sua dignidade, primeiro na mente e na atitude dos seus chefes, e depois na relação de trabalho.

Existem instituições-chaves no processo do desenvolvimento integral do homem, Entre elas está a empresa. Nela, o homem passa uma parte muito importante da sua vida e nela realiza algo que para ele é meio de subsistência e de previsão para o futuro fonte do seu desenvolvimento: o trabalho. Creio que a empresa, sendo um ente social, deve, ao mesmo tempo que cumpre com sua missão essencial de otimizar os esforços dos homens e os recursos, ser não apenas humana, mas também humanizadora; quer dizer, deve promover o desenvolvimento dos seus homens e de todos os que dela se servem.

O valor agregado não se limita ao econômico

É tão grande e variada a atividade e presença do Estado mexicano, que é praticamente impossível realizar algo sem sua intervenção e sem que tenhamos que sujeitar-nos às suas ordens e vigilância. A empresa privada pode ser, se nós quisermos, um reduto de liberdade, em que esta se pratique até o limite das possibilidades de cada um, segundo sua capacidade de adesão aos objetivos da empresa. Apenas na liberdade o homem pode desenvolver-se ao máximo da sua capacidade e do seu esforço. A empresa pode ser um bom campo para que o homem se expresse e comprometa livremente. Para isso, a empresa deve ter, ou melhor, tender a ter em si mesma algumas características que lhe permitam ser cada vez mais humanas.

Ela não pode renunciar a continuar sendo a otimizadora dos recursos materiais e técnicos e dos esforços dos homens. Sua função aqui consiste em proporcionar mais e melhores produtos e serviços com o menor custo, em termos de insumos materiais, técnicos e esforços humanos. O êxito neste campo se mede pelas utilidades, ou melhor, pelo valor econômico agregado que seja capaz de gerar. Defino aqui, o valor econômico agregado como a diferença entre os ingressos obtidos pelos produtos ou serviços medidos pela empresa e os insumos requeridos e o custo de manutenção do capital empregado. Este valor econômico agregado será  a fonte para retribuir aos que entram com o trabalho e os que entram com o capital.

A empresa não pode desinteressar-se do habitat do homem; em outras palavras, tem que ser cuidadosa ao usar os recursos comuns a todos os homens, não os contaminando, mas, pelo contrário, procurando as formas de melhorá-los, regenerá-los, etc. Como cuidar do habitat do homem tem um preço e este tem que ser pago por quem recebe o benefício, neste caso, o consumidor dos produtos e serviços, é importante que o Estado – como gerente do bem comum - fixe as regras no que se refere à contaminação, para que sendo suficiente, todos estejam obrigados a preservar o ambiente. Estas regras têm que considerar a capacidade dos consumidores para pagar o custo necessário.

Quando se pensa na função otimizadora o motor é o interesse pessoal. A procura do interesse pessoal e um ambiente propicio garantem que a empresa esteja sempre à procura também de formas mais eficientes e produtivas de organização do trabalho e do uso de recursos materiais e técnicos. Se se tratar da conservação do ambiente, o Estado omitirá  as regras gerais e cuidará  da sua aplicação. No entanto, quando se trata do desenvolvimento do homem pelo trabalho que desempenha na empresa, faz falta uma motivação mais elevada.
O responsável pela empresa deve ter a consciência muito clara de que o homem se desenvolve por meio do trabalho, e de que a maneira de preparar o trabalho e de organizá-lo tem uma influência decisiva na vida dele.

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