PROJETOS 2009

AS ORIGENS DA CRISE FINANCEIRA: TÉCNICAS OU ÉTICAS?

Com o título acima, a Fundação Fides realizou, no dia 6 de abril de 2009, nas dependências do Espaço Manacá, do Conselho Regional de Administração de São Paulo, um debate que contou com a participação do Professor Keyler Carvalho Rocha, Doutor em Administração pela FEA/USP e Vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças de São Paulo – IBEF-SP e da Professora Laura L. Nash, pesquisadora e professora em várias áreas da ética e da liderança nos negócios da Universidade Harvard, dos EUA.

Numa primeira abordagem, o Professor Keyler apontou um conjunto de antecedentes da atual crise financeira mundial, localizando sua gênese nos Estados Unidos e atribuindo-a a uma série de fatores. Citou, entre outros, o processo de desregulamentação que vem se desenvolvendo desde o início do governo Reagan nos anos 80; a política monetária expansionista do Federal Reserve; um longo período de baixas taxas de juros e o substancial aumento do crédito.

Por outro lado, mostrou como a insaciável ganância decorrente dos sistemas econômicos vigentes esteve na origem de outros importantes fatores da crise. Alguns desses fatores podem ser ligados aos conflitos entre os acionistas e os administradores das empresas, estes últimos presos a salários fixos e os primeiros, exigindo dividendos cada vez maiores. A solução desse conflito veio através da concessão de bônus, ou participação nos resultados e de “stock options” aos administradores. A partir daí, os interesses passaram a ser convergentes entre estes e os acionistas: obter o maior lucro possível. As concessões de bônus extremamente elevados, em função de relatórios não sempre fiéis à realidade e acobertados por empresas de auditoria causaram escândalos como os da Worldcom, da Enron, da Vivendi, etc. Por outro lado, a sede desenfreada de lucros deu origem a certas inovações financeiras, como os derivativos, etc.; a inflação no preço dos imóveis e a “bolha” imobiliária; o crescimento do crédito hipotecário e a subseqüente transferência das hipotecas em pacotes de derivativos: o “subprime”.

Em meados de 2007, o excesso de oferta e a retração dos compradores levaram à queda dos preços dos imóveis. Os saldos devedores dos imóveis residenciais passaram a valer mais do que os próprios imóveis, causando um crescimento da inadimplência nos créditos imobiliários. Em conseqüência, além da devolução dos imóveis, o problema passou a se estender também aos bancos, causando uma série de falências, de intervenções e de fusões. A falta de confiança geral que resultou de todas essas circunstâncias levou à interrupção dos créditos tanto interbancários quanto aos clientes.

A falta de crédito, por sua vez, provocou uma redução significativa nos investimentos das empresas e nas suas vendas, resultando num desemprego crescente e numa recessão; os ativos – inclusive as ações – foram perdendo valor, causando vultosas perdas nas bolsas de valores. O Governo americano teve de intervir com enormes recursos para evitar falências de diversas grandes empresas.

Naturalmente, sendo os Estados Unidos os maiores consumidores e os maiores investidores, a situação teve reflexos importantes em todos os demais países. O sistema econômico globalizado levou a crise para todas as partes do planeta.

Diante deste histórico da crise, o Professor Keyler ponderou que as causas são tanto técnicas quanto éticas. De um lado, na vertente técnica, citou, entre outros, a desregulamentação inadequada e a leniência dos órgãos públicos assim como as decisões tardias do governo; a visão de curto prazo e os riscos elevados assumidos sem “hedge” pelas empresas; as auditorias externas ineficazes e falhas. Do lado das falhas éticas, enfatizou a excessiva ganância dos administradores, os seus conflitos de interesses e a conseqüente falta de lealdade; a falta de transparência nas transações e os desvios de conduta; as fraudes contábeis para a obtenção de vantagens pessoais e a assunção de riscos desmedidos para aumentar o lucro e assim obter melhores bônus.

Em sua conclusão, o Professor Keyler afirmou que, na sua opinião, a crise teve origem, concomitantemente, em causas técnicas e éticas.

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A Professora Nash concordou plenamente com essa afirmação, mas abordou a questão de um ponto de vista diferente. Partiu de três perguntas fundamentais:
1) O que a ética empresarial nos diz sobre a crise financeira dos EUA?
2) O que a crise financeira dos EUA nos diz sobre a ética empresarial e
3) O que ambas nos dizem sobre responsabilidade social empresarial?

Analisando a declaração do Presidente Obama, de que “não se trata apenas de uma solução financeira: temos de desfazer uma cultura de ganância e inconseqüência”, a Professora Nash mostrou como a ideologia do interesse próprio, base de todo o sistema capitalista, ao sair fora de controle pode transformar-se numa cultura da ganância. Lembrou, a este respeito, a famosa frase de Adam Smith: “Não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover seu próprio auto-interesse”.

O empreendimento ético exige mais nuances. O excesso ocorre quando aquilo que se percebe como um direito à prosperidade individual se sobrepõe à responsabilidade pelo bem comum. Ao se referir à cultura da ganância e da inconseqüência citada pelo Presidente Obama, Laura Nash mostrou como essa cultura passou a valorizar acima de tudo o sucesso material. Pesquisas realizadas nos EUA apontam como os jovens empreendedores têm todos como objetivo tornarem-se os futuros homens ou mulheres mais ricos do mundo, os futuros “Bill Gates”, ou seja, possuem modelos grandiosos de riqueza. Acreditam em enriquecimento fulminante e em soluções de gênio para tudo. Afirma-se que o fracasso é inconcebível, se você é um gênio e que, inversamente, riqueza extraordinária significa que você é um gênio.

Por outro lado, no mundo empresarial inserido nessa mesma cultura, o risco passou a ser um conceito apenas teórico e acredita-se que o livre mercado, que comanda tudo, tem condições de se auto-corrigir diante de qualquer deficiência.

A cultura da ganância tem por lema: “nada é suficiente”, sempre se quer mais. Além do que, a ganância vicia e é contagiosa. Passa a ser muito difícil de ser controlada. É acompanhada de um desejo permanente de superação e uma grande aversão a qualquer noção de perda.

A professora Nash contou a seguinte história:

Um velho índio Cherokee estava dando lições de vida ao seu neto.

“Uma luta está sendo travada dentro de mim“, diz ele ao menino. “É uma luta terrível entre dois lobos”. Um deles é mau – ele é a raiva, inveja, tristeza, arrependimento, ganância, arrogância, auto-piedade, culpa, ressentimento, inferioridade, mentiras, falso orgulho, superioridade e ego. O outro é bom – ele é alegria, paz, amor, esperança, serenidade, humildade, gentileza, benevolência, empatia, generosidade, verdade, compaixão e fé. Essa mesma luta está sendo travada dentro de você – e dentro de todas as outras pessoas.“

O neto ficou pensando um minuto e então perguntou ao avô: “Qual deles vai ganhar?“ O velho Cherokee respondeu “Aquele que você alimentar."

Entre os conselhos que a Professora Nash dá para “melhor alimentar o lobo bom”, pode-se citar:

•  Acabar com o “sistema das sombras” que cobre de segredo todas as operações da empresa; sempre que possível, usar de transparência nos negócios. As operações secretas geralmente encobrem ou dão origem a deslizes morais.
•  Reformular as bases de comparação, o famoso “benchmarking”, para incluir os aspectos éticos considerados.
•  O fim não justifica todos os meios: estes também devem obedecer critérios éticos. Por vezes, as “boas intenções” não nos deixam perceber este fato.
•  Os períodos de bonança, quando tudo está bem, constituem os maiores desafios éticos. É preciso desconfiar do senso de infalibilidade que tais períodos nos dão.
•  Adequar a ideologia financeira a uma visão ética da responsabilidade social da empresa. Estabelecer limites para o que se pode fazer nessa área.
•  Aprofundar o sentido da generosidade, do afeto, da “ética da empatia”. Compartilhar oportunidades, recompensas e... sofrimentos.
•  Manter uma vigilância constante sobre o equilíbrio entre o interesse próprio e o bem comum. Restringir o egoísmo – já que sua supressão total é impossível – mediante o ajuste de nossas expectativas:

- riqueza até que ponto?
por quanto tempo?

•  Mas essa restrição do egoísmo e das expectativas não pode se limitar apenas ao campo do dinheiro. Há outras perguntas a se fazer:

- Quem você quer ser?

- Como você quer que seja a sua comunidade?

- Como a sua empresa é administrada em tempos de dificuldades: em que bases são feitas as demissões?

Em suas reflexões finais, a Professora Nash enfatizou que o sofrimento causado pela crise não acabou, mas não serão soluções mágicas que nos livrarão dela. A crise econômica, na verdade, é uma crise de valores e a boa notícia é que são os valores que nos ajudarão a sair da crise.

(Resumido por Peter Nadas)